Por: Boanesio Cardoso Ribeiro
Expoentes da literatura sambentista
Os dois são os maiores expoentes literários de São Bento do Sapucaí, até hoje, que alcançaram reconhecimento, não só regional, mas em todo o Brasil. Enaltecidos, Plínio Salgado e Eugênia Sereno tiveram obras que marcaram o momento literário em suas épocas e hoje, estão praticamente lançados na galeria dos esquecidos. O meu objetivo não é traçar um aprofundado estudo sobre ambos, pois existem muitas pesquisas sobre eles, mas tentar de uma forma mais simples e bem resumida traçar alguns comentários pessoais sobre as suas principais obras literárias: O estrangeiro e O pássaro da escuridão.

Foram eles as suas primeiras obras romanceadas, embora havendo o parentesco familiar, aconteceram em épocas e situações diferenciadas, O estrangeiro, lançado em 1926, e O pássaro da escuridão, em 1965. Lançado após a Semana de Arte Moderna de 1922, O estrangeiro tem hoje cem anos. Plinio, que participou com outros nomes como Menotti del Picchia do evento de 22, foi um dos fundadores de uma de suas correntes, o Verde-Amarelismo. O estrangeiro foi muito bem recebido, tendo sua primeira edição esgotada em 20 dias, com críticas favoráveis, inclusive, de Monteiro Lobato, que tinha uma certa restrição com os modernistas. Plínio chegou a declarar “O meu primeiro manifesto integralista foi um romance: O estrangeiro.” Foi no ano de seu lançamento que ele definitivamente mergulhara na política, um dos grandes e justos motivos de seu ostracismo hoje.
O romance conta a história de Ivan, um imigrante russo, tendo como pano de fundo a inquietação do autor quanto ao crescimento urbano e o mal que, segundo ele, justificava o liberalismo (imperialismo econômico) e o doutrinário (comunismo), que para si comprometiam a alma nacional. Usando uma linguagem até então inovadora, com frases curtas, ritmo acelerado, gírias da época e o modo de falar do homem do interior, misturando diálogos com descrição de paisagens. Trazia o cerne do movimento Verde-Amarelista: o nacionalismo primitivo. Plínio acompanhou de perto o andar do movimento eugenista que crescia no país, onde a questão da imigração tinha importância ímpar em sua doutrina. Resumindo, foi um best-seller da época merecendo a leitura pela sua contextualização histórica.
Poesia pura, do começo ao fim, assim vejo “O pássaro da escuridão“, de Eugênia Sereno. Prêmio Jabuti de autora revelação em 1966, sua estreia balançou o mundo literário. Seu livro foi colocado nos patamares das obras de Guimarães Rosa. A pequena cidadezinha do interior, para Eugênia, se torna numa infinidade de tramas, folclore, mitologia regional, vida e as coisas simples de seus moradores, tornando uma magnitude narrativa e poética. Eugênia escreveu “O pássaro da escuridão” para pairar sobre o tempo e a história.
A estrutura temporal de Eugênia é circular, mnemônica; de Plínio, o tempo é fragmentado, veloz e progressivo. A focalização de Eugênia é interna e intimista, focada no drama existencial. Já a de Plínio é externa, distanciada, e focada no choque social. Plinio usou a prosa aforística e conceptual, Eugênia foi poética, sinestésica, rica em neologismos. Como trataram o espaço? Eugênia, o interior como a clausura e microcosmos da alma; e Plínio, como laboratório e palco de mutações.
Impossível descrever em poucas linhas o grande universo literário de ambos. O que faz deste artigo ser mais um chamamento à lembrança de suas obras, inaugurando essa nossa coluna mensal.
“ O pássaro da escuridão ganha o âmago das almas através de páginas onde a autora, num transporte de sensibilidade imaginativa e dramática fixa painéis de admirável tonalidade […] num clima de poesia e miasmas.” (Goodreats)
Quanto ao O estrangeiro:
“ É escrito numa sucessão de fragmentos que apreendem momentos, situações, estados de espirito. Vez por outra escorregam para o aforismo, ou a reflexão abstrata.” (A terra é redonda).
Sobre o autor:
Boanesio Cardoso Ribeiro, nascido em São Bento do Sapucaí. Engenheiro civil, pós-graduado em engenharia ambiental, tendo uma das minhas grandes paixões a literatura. Com várias décadas trabalhando no meio político, construí um olhar crítico sobre o mundo do poder.
